Tu que estas aí, sem movimento, inerte. Onde estavas que não viste o que vi? Não sentiste a dor que senti? Tu choras? Tu sentes? Vês o que vejo? Pergunto-te se choras por mim, se sentes por mim, se vês por mim.

Tu és uma sombra que me acompanha e me espreita do alto dos prédios. Uma sombra pequena e torta, estática. Tu és aquilo que não se envolve, não participa e tampouco abriga. Mas tu és aquilo de que não consigo me libertar. Porque tu me acompanhas mesmo quando não segues comigo.

Tu que ficaste apático diante de meu desespero e passível diante de minha dor. Tu, a quem entreguei minhas aflições e meus medos. Tu partiste no cair da noite e voltaste no nascer do dia apenas para escarrar na minha cara que, para a solidão, não há segunda pessoa.

Tu que estás diante de mim. Como pudeste te tornar essa pessoa que me olha e não me absorve? Sou muito mais do que essa superfície à qual fui reduzida diante de teus olhos. Olhos que, olhando mais de perto, se parecem com os meus. Mas como podes ter meus olhos? Impactando-me, revelando-me, e jogando-me verdades que tentei te esconder.

Tu, a quem não quero reconhecer por seres tudo o que tentei não ser. Tu que me olhas fixamente e não dizes nenhuma palavra, te trais e deixas escapar uma lágrima. Tu que não me abraças e observas a tudo em silêncio. Entendo que também sentes, também sofres. E, então, percebo que teus olhos são meus. Porque somos a mesma face. Porque agora somos só nós, tu e eu, e por mais que eu corra, permaneço em ti.

2 comentários sobre “Segunda Pessoa

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